CADÊ?
dezembro 26, 2012
Contozinho de Natal II*
Um casal saíra de um restaurante. O homem cambava. Bêbado, imaginou. Então, Jesus Cristo, com uma arma de brinquedo, a única para os três filhos, disse: É um assalto. A mulher, a infeliz mulher, delegada, sacou de uma 465 e deu-lhe três tiros nas fuças.
* Texto publicado hoje no Confraria Tarântula.
fevereiro 01, 2011
Etna
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| Foto de autoria não identificada. |
dezembro 24, 2010
Contozinho de Natal
abril 27, 2010
dezembro 08, 2009
A preguiça
Deitado. Aquele músculo flácido sobre a bolsa escrotal. Inútil? M., ao seu lado, ressonava. Negara sugá-lo. Pediu então que o manipulasse. O dia cheio, a desculpa. Filha da puta!
maio 16, 2009
Don Juan em ruínas,
“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo”
Caetano Veloso
já não se olha no espelho: as mãos vincadas denunciam a vetustez. O rosto, antes das mãos, composto em mosaico. E quando inteiramente disforme a face, desprezou os espelhos. Foi quando se enclausurou no apartamento. Notícias, absolutamente inúteis, chegavam-lhe com Zefinha, serviçal, como fora a avó e a mãe. Sabe da vida lá fora, em verdade, por sua Nikula. Da varanda, até certo tempo, avistou o calçadão da Barão de Castelo Branco, com bundas em exercícios. Com elas, lembranças de algumas mulheres que tivera. Deixou de vê-las quando a memória falhou definitivamente. Agora, mira a luneta em direção à zona leste, e à frente de seus olhos apenas transeuntes.
Dom Juan em trapos, ei-lo dirigindo-se ao escritório, aflito para, num lampejo de memória, narrar mais uma de suas aventuras. À escrivaninha, nenhuma lembrança. Restara-lhe gritar por Zefinha que, lasciva, como a avó e a mãe, atendeu-o nua. E então narrou a sua desfloração por Laerte, em um elevador, como antes narrara o seu desvirginamento por Abreu, em casa; por Berto, num matagal; por Cardoso, num campo de várzea; por Deodato, atrás da matriz; por Francisco, num Fusca; por Guilherme, num riacho; por Henrique, num motel; por Ismar, numa avenida; por Jaime, num jet sky; e por Kelson, num hotel, como se tivesse sido, efetivamente, a sua primeira trepada. À narrativa de Zefinha, por ele adornada, nenhuma ereção, mesmo quando, vez por outra, olhava a carne fresca, os pelos púbicos. A terceira geração, para ele, definitivamente, inatingível.
Nem lembra, coitado, que a mulher, sua companheira, por várias vezes tentou matá-lo, possessa por flagrá-lo em sem-vergonhices. Ele sempre, quando não possível as negar, alegava que fora seduzido, cinicamente recomendando que as matasse e não a ele, verdadeira vítima. A mulher, nessas ocasiões, retrucava que não se tornaria uma serial killer. Os amigos, quando os tinha, lembravam dos episódios, às gargalhadas. Agora, restava-lhe, acha, apenas Elizeu — há menos de um ano se falaram ao telefone. Os demais mortos estavam.
O que lembra, e lembra bem, é do temor que tinha da velhice. Os primeiros cabelos brancos pareceram-lhe uma condenação severa. Nunca supôs que a pena que o tempo iria lhe impor era a da prisão perpétua, sem qualquer apelação. Melhor a de morte. A morte — ah, a morte! —, recusava-lhe como hóspede: a certeza advinha de fracassadas tentativas de suicídios. Definitivamente, teria que viver com o que mais abominou na vida: o envelhecimento.
Conto deste blogueiro antes publicado no Confraria Tarântula.
fevereiro 24, 2009
Carnaval, Carnaval
A bermuda de jeans e a camiseta verde. Calçou os tênis. Virou-se. Encarou o espelho. Penteou-se. Ouvia Don’t Let The Dragon Eat Your Mother, brother, de John McLaughlin.
outubro 02, 2008
A última ceia*

A mulher, que há uma semana nem lhe atendia os telefonemas, agora lhe acenava com o que, com freqüência, negara. Redimir-se-ia porém, hoje, do batom na cueca.
Às escuras, a casa. Qual a surpresa? A mulher, na cama, nuinha, ou numa lingerie provocante? “Amor?”, sussurrou. “Cadê você?” O quarto: porta entreaberta. A cortina penumbrava mais ainda o ambiente, impedindo o fulgor lunar daquela noite. Vulto da mulher na cama, deitada, as pernas semi-abertas, os braços erguidos, chamando-o.
Mal se desfez de toda a roupa atirou-se sobre a mulher, e o abajur repentinamente aceso revelou E., A., J. e M. que, nuas e em uníssono, gritaram “Surpresa!”, e se arremessaram sobre ele. “O que é isso?”, balbuciou. A mulher disse que o amava demais e que, entre procurar outra na rua, que não conhecia, preferia que ele se satisfizesse com ela e as amigas. Porque achou que o testavam, repeliu os toques. Mas, enquanto a mulher, A, J. e M. o subjugavam, E. imprimiu gestos audaciosos, com mãos e boca. Relaxou...
Sem limites — qualquer um! —, transou com a mulher, E., A. e J. Com a última, sabia, não resistiria ao gozo, inteiro que estava, seu corpo chocando-se com as nádegas da mulher. Gritou “Vou gozar”, e antes que M. anunciasse por completo o ápice, o estampido, e a última imagem vista, fixada na cabeceira da cama, um fragmento de seu cérebro.
Depois, apenas o corpo arremessado sobre M.
setembro 12, 2008
A encomenda
“Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha”
Atirador, por Lula Queiroga
Sentado em frente ao homem de branco, viu a mão pálida aproximar-se, arrastando-se no tampo da mesa, pressionando uma foto. Afastou-se rápida, e sumiu por instantes. Uma gaveta abriu-se. A mão pálida voltou segurando um envelope. E ouviu o homem dizer “mate o canalha, e apenas o canalha.” Pegou a foto, e mirou-a, mentalizando o rosto do homem morto; sim, já morto. A menos que o envelope não contivesse o valor do contrato. Virou a foto, os endereço impressos: o do trabalho e o de casa. Largou a foto. No envelope, o dinheiro acertado. Não disse palavra. Apenas se levantou e encaminhou-se para a saída. Ouviu ainda o homem de branco dizer que queria no jornal a notícia da morte do canalha. E pensou: “tá lá, doutor.”
* * *
agosto 16, 2008
O Plano*
* Conto deste blogueiro, publicado hoje no Confraria Tarântula.
agosto 07, 2008
Em busca de um certo tom escarlate
“Morrer deve ser tão frio
Quanto na hora do parto”
Gilberto Gil: Aqui e Agora, in Refavela
Os amigos atribuem a sua desventura, como tem sido vulgar, a uma mulher: Carmen, colombiana e artesã, com quem seguiu rumo ao sul, queimando cannabis sativa e fazendo artes. Eu, aliás, encontrei-o em Brasília, no Moinho, e dele comprei uma xilogravura, que, ainda hoje, moldura minha sala. Aquele menino, outrora alegre, dinâmico, era triste, apático. Já não se lembrava de ninguém. Muito menos da cidade natal.
Tempos depois, soube do seu regresso. Disseram-me que estava abatido, irreconhecível. Devorava telas, que um mercador lhe dava, em busca de um certo tom escarlate. Buscou-a ao limite, incisando o pulso, encerrando a vida como uma quarta-feira de cinzas finda o carnaval por estas bandas.
julho 17, 2008
Até que a morte os separe*
— Demorei porque encontrei a fulana.
As narinas vibraram silenciosas. O Z não era feminino. Tampouco fulana era uma desmiolada: nunca usaria um perfume masculino.
Quem lhe teria tocado com patchouli? A percepção, ainda que não sentisse aroma diverso da que usava, era de quem, se não o traíra, fodendo, estivera flertando. O pigarro, quando detestava cigarro, indicava a mentira, ou, no mínimo, o desconforto.
— Você agora usa Z?
— Tá louco?
Vagabunda, murmurou, tateando o caminho rumo ao quarto. Retrucou, em sussurro, filho da puta.
E foram dormir.
* Publicado hoje na Confraria Tarântula.
maio 29, 2008
A herança de cada um*
A mãe levantou-se e dirigiu-se à varanda. Olhou o céu, e, como se o desprezasse, buscou a terra.
Os filhos, ainda hoje, agridem-se por qualquer bobagem. A mãe não esboça qualquer gesto para separá-los, presa à cadeira de rodas e ao passado. Ontem, porém, Lucídio visitou-a à noite, enquanto dormia, com a marca de corda no pescoço, prometendo retornar. As mãos tremeram e o rosto contraiu-se ao lembrar que ele a chamara de assassina.
* Conto extraído do blog Confraria Tarântula, postado em 16 de maio.
abril 24, 2008
O amor é possível*
Quando ela disse-lhe que a esperasse e ameaçou transformar comprar em verbo irregular, suprimindo as primeiras pessoas do singular e do plural, parou, abraçou-a, tentando entrelaçá-la, e beijou-a.
* Conto extraído do blog Confraria Tarântula, postado em 16 de abril.
abril 12, 2008
Helena
"Não é por que sei que ela não virá que não vejo a porta já se abrindo"
Meu mundo ficaria completo (com você), por Nando Reis
A princípio, bêbado, o peso do mundo sobre sua cabeça, enquanto na cama, o torpor, e a evocação de Helena. Chamou-a até dormir. E teve a impressão de que ela viera, em sonho. Linda, estava como da última vez que a vira. Pareceu-lhe que reatada a linha do tempo, abruptamente interrompida com o sumiço de Helena. Ou tudo teria sido realidade? Sentia o sabor do batom que Helena costumava usar. O costado da mão convenceu-lhe do sonho.
Então, no dia seguinte, um amigo deu-lhe notícia de Helena. Estava na cidade, para casar com um colombiano de nome Pablo. Disfarçou o desapontamento, dizendo que agora ela cantaria boleros em espanhol impecável. O jornal, atirado pelo amigo, foi duro golpe. Ali estava ela, feliz. Foi para casa, e ouviu La Puerta repetidamente, ignorando brados de vizinhos, impassível, absorto na imagem daqueles olhos felizes e amendoados. E naquele dia não dormiu propositadamente, para sonhar com Helena, que esteve presente com ele a noite toda, revirando a cama e queimando lençóis, e, ao sol parir, aflautando canções de Chico, como costumeiramente fazia nas manhãs, depois de noites báquicas.
Então, escreveu: “Não dormi. Helena também não.”
Não procurou Helena. Nada, nada mesmo, tinha a lhe falar. Disse a si mesmo: estava morta. Evitou os jornais por uns dias. Debruçou-se sobre o projeto pendente, por horas a fio, todos os dias, varando a noite frente ao Autocad. E a vida seguiu seu curso, com mudanças de estações e com Maria, Rosângela, Eliza, Ana, Alice, Sônia, Edna, Lindalva, Carol, Sueli, Jaqueline, Luciana, Luíza, Teresa, Marta e...
Bêbado, em uma noite, lembrou-se de Helena. Evocou-a até adormecer. E Helena veio. Com ela, a chuva. Viram-na lavar a janela, e desenharam desejos no frio do vidro. Da varanda, viram, enublado, o rio, e dele não exalava a fedorentina de sempre. A cidade acordava quando ela foi embora. Viu sua imagem desfazer-se no canto do quarto, com a certeza de que sonhara. Depois, adormeceu com o cheiro de sexo emanando de seu corpo. Acordou pelos toques do telefone. Tarcísio, excitado, perguntou-lhe se já tinha visto o jornal. Não, respondeu. Então, soube que Helena estava na cidade, com o marido e a filha, Maria. Agradeceu ao amigo. Sonolento, mas praguejando por ter sido acordado para uma notícia que já sabia, pegou os jornais. Todos anunciavam a estadia de Helena na cidade. A mãe, doente, interrompera a administração da família em próspero comércio. Brincou com a situação. Disse que lamentava não ter sido poeta romântico, e morrer, depois de contrair a mycobacterium tuberculosis, apaixonado.
abril 09, 2008
Frustração
Ato II. Agradável, insinuante, sussurante, sexy.
Ato III. Embriagada, sedutora, excitante, sexy.
Ato IV. Música, meia-luz, sofá, vestida, sexy.
Ato V. Nua, cicatrizes, gorduras, náuseas, baranga.
Ato finale. Noite, táxi, bêbado, dormir, solitário.
março 22, 2008
Acerto de conta
Pensou, neste instante, buscando a Smith & Wesson deixada por Paulo, que todas as pessoas são doentes.
março 09, 2008
Um segredo a mais
Teve certeza, ao buscar o térreo, de que You're Still The One já não lhe tocava como antes e sorriu ao pensar que tinha mais um segredo a conservar distante do idiota.
fevereiro 23, 2008
Genésico
Caudaloso rio fluía das entrepernas, límpido e quente. Quando a nau, tardia, invadiu o porto, o rio enrubesceu-se, e, depois de sons ininteligíveis, o vermelho, em correnteza já tênue, viu-se com bolsões viscosos e embranquecidos.
O capitão, finda a invasão, exausto, mas sentindo-se Deus, imaginou, equivocadamente, ter feito da cidadela uma mulher.
