CADÊ?

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dezembro 26, 2012

Contozinho de Natal II*


Um casal saíra de um restaurante. O homem cambava. Bêbado, imaginou. Então, Jesus Cristo, com uma arma de brinquedo, a única para os três filhos, disse: É um assalto. A mulher, a infeliz mulher, delegada, sacou de uma 465 e deu-lhe três tiros nas fuças.


* Texto publicado hoje no Confraria Tarântula.

fevereiro 01, 2011

Etna

Foto de autoria não identificada.

Chegou em casa. Atirou-se no sofá. E disse eu estou acabada. Meus seios estão caídos. Claro que era delírio. Seus seios estão mais rijos que o monte Fuji, disse-lhe, enquanto os tocava. Preciso fazer uma plástica. Conversa! Afastei a blusa e sorvi o gelo do cume, em uma temperatura que parecia o Etna.

 

dezembro 24, 2010

Contozinho de Natal

A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo.  O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel.  Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito.  A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se do bom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.

abril 27, 2010

Em tantas noites seguidas, um tiro no peito. E agora, atravessando a rua, dirigindo-se à sua casa, a morte com uma carabina estendendo-lhe o braço.

dezembro 08, 2009

A preguiça

Deitado. Aquele músculo flácido sobre a bolsa escrotal. Inútil? M., ao seu lado, ressonava. Negara sugá-lo. Pediu então que o manipulasse. O dia cheio, a desculpa. Filha da puta!

maio 16, 2009

Don Juan em ruínas,

“És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo”
Caetano Veloso

já não se olha no espelho: as mãos vincadas denunciam a vetustez. O rosto, antes das mãos, composto em mosaico. E quando inteiramente disforme a face, desprezou os espelhos. Foi quando se enclausurou no apartamento. Notícias, absolutamente inúteis, chegavam-lhe com Zefinha, serviçal, como fora a avó e a mãe. Sabe da vida lá fora, em verdade, por sua Nikula. Da varanda, até certo tempo, avistou o calçadão da Barão de Castelo Branco, com bundas em exercícios. Com elas, lembranças de algumas mulheres que tivera. Deixou de vê-las quando a memória falhou definitivamente. Agora, mira a luneta em direção à zona leste, e à frente de seus olhos apenas transeuntes.

Dom Juan em trapos, ei-lo dirigindo-se ao escritório, aflito para, num lampejo de memória, narrar mais uma de suas aventuras. À escrivaninha, nenhuma lembrança. Restara-lhe gritar por Zefinha que, lasciva, como a avó e a mãe, atendeu-o nua. E então narrou a sua desfloração por Laerte, em um elevador, como antes narrara o seu desvirginamento por Abreu, em casa; por Berto, num matagal; por Cardoso, num campo de várzea; por Deodato, atrás da matriz; por Francisco, num Fusca; por Guilherme, num riacho; por Henrique, num motel; por Ismar, numa avenida; por Jaime, num jet sky; e por Kelson, num hotel, como se tivesse sido, efetivamente, a sua primeira trepada. À narrativa de Zefinha, por ele adornada, nenhuma ereção, mesmo quando, vez por outra, olhava a carne fresca, os pelos púbicos. A terceira geração, para ele, definitivamente, inatingível.

Nem lembra, coitado, que a mulher, sua companheira, por várias vezes tentou matá-lo, possessa por flagrá-lo em sem-vergonhices. Ele sempre, quando não possível as negar, alegava que fora seduzido, cinicamente recomendando que as matasse e não a ele, verdadeira vítima. A mulher, nessas ocasiões, retrucava que não se tornaria uma serial killer. Os amigos, quando os tinha, lembravam dos episódios, às gargalhadas. Agora, restava-lhe, acha, apenas Elizeu — há menos de um ano se falaram ao telefone. Os demais mortos estavam.

O que lembra, e lembra bem, é do temor que tinha da velhice. Os primeiros cabelos brancos pareceram-lhe uma condenação severa. Nunca supôs que a pena que o tempo iria lhe impor era a da prisão perpétua, sem qualquer apelação. Melhor a de morte. A morte — ah, a morte! —, recusava-lhe como hóspede: a certeza advinha de fracassadas tentativas de suicídios. Definitivamente, teria que viver com o que mais abominou na vida: o envelhecimento.


Conto deste blogueiro antes publicado no Confraria Tarântula.

fevereiro 24, 2009

Carnaval, Carnaval


“Eu vejo as pernas de louça
“Da moça que passa e não posso pegar
“Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”
Chico Buarque

A bermuda de jeans e a camiseta verde. Calçou os tênis. Virou-se. Encarou o espelho. Penteou-se. Ouvia Don’t Let The Dragon Eat Your Mother, brother, de John McLaughlin.
José entrou no quarto.
José: — ‘Tamos no carnaval, cara!
Ele: — Eu sei.
José: — Então?
Ele balançou o corpo. Uma Gibson “The Les Paul” imaginária nas mãos ágeis.
José: — O problema é que não observamos as raí...
Ele: — Vamos.
Saem.
* * *
“REINADO DE MOMO
“PALÁCIO DA FOLIA
“Edito Real
“Sua majestade, Rei Zé Fortes, Primeiro e Único, no uso de suas intransponíveis e irrevogáveis transições legais
“Decreta
“Art. 1º - A partir de hoje reina a alegria e é revogada a tristeza.
“Art 2º - Os descontentes com o Reinado de Momo deverão ser confinados:
“a) nas praias de Luiz Correia ou Barra do Ceará;
“b) em Sete Cidades; e
“c) nas matas de Timon e adjacências.
“Art 3º - Nos clubes, todos devem pular, lépidos e fagueiros, juntos ou separados, porque a orientação do Rei é de que sem alegria não dá.
“Art 4º - Os condes e conselheiros do Reinado anterior considerem-se demitidos, pois no novo Reinado a bossa é nova.
“Art 5º - As coroas devem abdicar máscaras e soltar os en­xovalhos, uma vez que no atual Reinado toda mulher é boa.
“Art 6º - Fica abolido o preconceito à transação gay; afinal, todos são iguais no carnaval e nem sempre o saracoteio dos quadris homologa a placa.
“Art 7º - Os que saírem nas ruas, pensando ficar fora do trino momino, deverão ser seqüestrados e recolhidos ao Quartel General da Folia, na Avenida Frei Serafim, até a passagem do Trio Elétrico.
“Art 8º - Revogadas as disposições e indisposições em contrário, o presente Edito Real entra em vigor na data de sua publicação.”
(Jornal O Dia, edição de 21/22 e 23 de fevereiro de 1982, pág. 7).
* * *
Aqui Pegou.
18h15min.
José, ele, a menina de óculos e o cara de bigode de arame.
Três copos. Quatro garrafas.
José: — Quem é homem não anda assim.
Ele: — Tudo é brincadeira.
Menina de óculos: — Li depoimento de um psicólogo que dizia o carnaval permitir ao individuo externar seus sentimentos reprimidos, o que somente é possível durante os três dias desta festa orgíaca, pois nos outros dias a sociedade possui um papel castrador em face daquilo que ela entende por atitudes amorais.
Cara de bigode de arame: — É, quem é homem não se veste assim. Nem no carnaval.
Ele observou o voar assustado e trinados dos pardais sobre as árvores da Avenida Frei Serafim.
Blocos de sujos, animados, vão e voltam, vão e voltam.
Ele e José vêem um bloco: Unidos do Esculacho. Todos com túnicas.
Ele: — É o bloco dos artistas.
José: — Aquele cara ali é artista?
Ele: — É.
José: — Todos eles são artistas?
Ele: — Não. Alguns que somente são veados.
* * *
Uma garota, short de jeans e blusa com a inscrição Univer­sity of California, encostada num Corcel II.
Um cara de calça preta e camiseta no ombro, depois de observá-la por algum tempo, aproximou-se.
Cara de calça preta e camiseta no ombro: — Oi, Pussy.
Garota de short jeans e blusa com a inscrição Univer­sity of California: — Hem?
Cara de calça preta e camiseta no ombro: —Você é Pussy!
Garota de short jeans e blusa com a inscrição Univer­sity of California: — Você está enganado. Eu não sou Pussy.
César que não vem. O cara de calça preta e camiseta no ombro está bêbado. Cambaleia ao afastar-se da garota que chamara Pussy.
* * *
“Numa cidade que se pretende civilizada, a polícia não acode aos desditosos habitantes martirizados por alguns engraçados sem espírito que levam horas inteiras espancando peles dos zabumbas, quando as próprias é que deveriam ser escovadas, uma vez que a autoridade consente semelhantes exibições grotescas, inqualificáveis, dignas de zulus ou boçais.”
(Revista Rua do Ouvidor, de 27/01/1900, citada por Chico Alencar no artigo Acabou o carnaval (mas faz muito tempo), publicado em O Pasquim, edição de 25/02 a 03/03/1982, pág. 7).
* * *
Um corpo no chão. Ninguém lhe dá atenção.
* * *
Dançavam juntos, não dançavam? Por que, então, parou? Por que a olhou diferente?
A moça: — O que houve?
O rapaz: — Não devia estar com você
A moça: —Por quê?
O rapaz: — Você sabe.
A moça: — O telefonema?
O rapaz: — É
A moça: — Esquece, pô.
(— Fale.
— Talvez você já tenha percebido.
Pausa.
— Eu gos...
— Alô? Você está me ouvindo?
— ‘Tou, sim. Fale
— Eu te a...
— Olha, você é um cara legal. Mas a ...
— Continue.
Pausa
— A minha cor, né?
Pausa.
— A minha cor, né?
Afastara-se do orelhão Sumiu na noite.)
* * *
O moreno vestido como mulher e bucho forjado. Acompanhou-o à avenida o vizinho, sarará franzino de boca torta e piscar constante do olho direito.
O branco vestido com bermuda superestampada e camiseta azul, sem mangas. Saiu no Puma.
O moreno vestido como mulher e bucho forjado divertia-se, seguindo qualquer bloco.
O branco do Puma bebia no Coisa Fina; loura, sentada em suas coxas, vez em quando levava-lhe à boca um naco de carne.
O moreno vestido como mulher e bucho forjado suado quando o dente começou a doer.
O branco do Puma balbuciou qualquer coisa no ouvido da loura. Saíram.
Bêbado, com um litro de Mangueira na mão, deu um trago ao moreno vestido como mulher e bucho forjado.
O branco do Puma, com a loura, na pista da avenida, num e noutro bloco.
O moreno vestido como mulher e bucho forjado viu o branco do Puma e disse para o sarará franzino de boca torta e piscar constante do olho direito: — Aquele filho da puta me tirou o emprego e não me pagou direito.
O branco do puma espremia a loura com força.
O moreno vestido como mulher e bucho forjado, referindo-se ao branco do Puma: — Vou dá um pau nele!
Sarará franzino de boca torta e piscar constante do olho direito: — Deixa pra lá, compadre.
O branco do Puma continuava a espremer a loura.
O moreno vestido como mulher e bucho forjado disse: —Vamos esquecer.
O branco do Puma pisou no pé do moreno vestido como mulher e bucho forjado.
* * *
“Se as fantasias revelam, então o carnaval mostra um mundo invertido, onde o pobre pode ‘bancar’ o rico; e os donos do poder podem buscar uma aproximação como mundo dos homens, ‘bancando’ pobres. Entrevistas com pobres que desfilarem de ‘reis’ revelam esse êxtase carnavalesco, quando alguém pleno de anonimato social ganhou os aplausos, as atenções e os olhares de to­dos os segmentos sociais num desfile. Entrevistas com gente de classe média alta indicam precisamente o oposto: aqui, há um prazer — como o de um arquiteto de sucesso — de ‘pisar de pé descalço o asfalto da Avenida.’ (...) Quer dizer, eu continuo achando admirável que uma sociedade no final do século XX ainda continue a celebrar suas relações sociais utilizando essa regra de inversão e, assim fazendo, possa permitir e legitimar uma ‘troca de lugar’, ainda que essa troca seja burocratizada, controlada pelo Estado, fugidia e tenha data marcada. Porque, apesar de tudo, é uma troca que permite vivenciar e justiça e a igualdade, a liberdade, a vitória e a esperança. Esses ingredientes centrais de qual­quer transformação social concreta.”
(Fragmentos do artigo Carnaval: o verdadeiro milagre brasileiro, de Roberto da Matta, publicado em O Pasquim, edição de 26/02a 04/03/1981, pág. 5).
* * *
— É bicha.
— Não. É uma mulher.
— É bicha.
— Porra! É mesmo!
— Olha outra ali.
* * *
Primeiro uma chuvinha fina. Parara. Pouco depois, como da vez passada, espectadores à procura de abrigos. A maioria permaneceu na chuva
— É incrível, ouvintes. Nem a chuva que desaba sobre o centro da Cidade Verde consegue afastar os espectadores da Frei Serafim. A chuva aumenta cada vez mais o entusiasmo do folião. Dá mais gosto de se ver um carnaval assim.
* * *
Ele e José tinham deixado numa mesa do Aqui Pegou a me­nina de óculos e o cara de bigode de arame. Caminhavam lenta­mente. José não parava de falar. Ele viu a garota de short jeans e blusa com a legenda Univer­sity of California.
Ele: — Olá, gracinha.
Garota de short jeans e blusa com a legenda Univer­sity of California: — Pussy.
Ele: — Hem?
Garota de short jeans e blusa com a legenda Univer­sity of California: — Pussy. Me chamo Pussy. Ele fez sinal para José.
Garota de short jeans e blusa com a legenda Univer­sity of California: — Parece que ele se chateou.
Ele: — Um chato!
* * *
Locutor do Posto nº 2, da Secom:
— Atenção, Laura Maria. Atenção, Laura Maria. Sua mãe te espera aqui no Posto nº 2. Compareça o mais breve possível.
* * *
“Quem não conhece o carnaval não conhece o Brasil, e quem não gosta de carnaval não gosta da alma brasileira. O carnaval ainda é feito pelo povo, já que a participação popular espontânea é maior que qualquer interferência dirigida, venha ela do poder público, de empresas privadas ou de qualquer pessoa diretamente interessada na festa. Essa manifestação espontânea é tão pode­rosa que mesmo durante as ditaduras impostas ao Brasil — do Estado Novo ao período pós-64 — conseguiu ser mais forte que a re­pressão. O povo continua dançando e cantando, porque para o povo brasileiro cantar é tão importante quanto sobreviver. (...)
“O morador do morro, quando encontra um vizinho no bar, não quer falar de suas desgraças. Prefere cantar sambas. Se tiver um pouquinho de sensibilidade, já faz um ritmo. Um pouco mais e improvisa em verso. Esse comportamento não morre com a ação de forças externas e garante a eterna sobrevivência do carnaval.”
(Albino Pinheiro, fragmento de O carnaval é eterno, revista Veja, nº 703, pág. 90).
* * *
José no bar.
Três garrafas vazias sobre a mesa. Pediu a quarta. Duas vezes levantara-se e fora ao banheiro. Fedorento.
Cerveja esquentando no copo.
* * *
Populares cercavam um corpo no passeio da Avenida Miguel Rosa, em frente à AFAL.
O assassino agiu rapidamente. O homem corria com dificuldade e Violeta, sóbrio, facilmente abateu-o.
Conjectura-se que tudo aconteceu por causa de uma puta chamada Margô.
Violeta, após matar o homem, tirou da bolsa uma gilete e começou a cortar-se, principalmente no antebraço esquerdo.
Desesperado, deixou a peruca cair.
* * *
As paredes desbotadas. Quase brancas. Cadeira de palha, bacia, jarra, penteadeira e cama.
Pussy virou-se. Encontrou-se diante de um homem que lhe sorria. Espantada, protegeu sua nudez. Levantou-se rapidamente. Vestiu-se. Abriu a porta. Saiu.
Na rua, duas senhoras, com terços e véus, caminhavam para a igreja.
O sol há muito fora parido.

outubro 02, 2008

A última ceia*

Ao contista Airton Sampaio


A mulher, que há uma semana nem lhe atendia os telefonemas, agora lhe acenava com o que, com freqüência, negara. Redimir-se-ia porém, hoje, do batom na cueca.
Às escuras, a casa. Qual a surpresa? A mulher, na cama, nuinha, ou numa lingerie provocante? “Amor?”, sussurrou. “Cadê você?” O quarto: porta entreaberta. A cortina penumbrava mais ainda o ambiente, impedindo o fulgor lunar daquela noite. Vulto da mulher na cama, deitada, as pernas semi-abertas, os braços erguidos, chamando-o.
Mal se desfez de toda a roupa atirou-se sobre a mulher, e o abajur repentinamente aceso revelou E., A., J. e M. que, nuas e em uníssono, gritaram “Surpresa!”, e se arremessaram sobre ele. “O que é isso?”, balbuciou. A mulher disse que o amava demais e que, entre procurar outra na rua, que não conhecia, preferia que ele se satisfizesse com ela e as amigas. Porque achou que o testavam, repeliu os toques. Mas, enquanto a mulher, A, J. e M. o subjugavam, E. imprimiu gestos audaciosos, com mãos e boca. Relaxou...
Sem limites — qualquer um! —, transou com a mulher, E., A. e J. Com a última, sabia, não resistiria ao gozo, inteiro que estava, seu corpo chocando-se com as nádegas da mulher. Gritou “Vou gozar”, e antes que M. anunciasse por completo o ápice, o estampido, e a última imagem vista, fixada na cabeceira da cama, um fragmento de seu cérebro.
Depois, apenas o corpo arremessado sobre M.


* Conto extraído da Confraria Tarântula, publicado ontem.

setembro 12, 2008

A encomenda


“Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha”
Atirador, por Lula Queiroga


Sentado em frente ao homem de branco, viu a mão pálida aproximar-se, arrastando-se no tampo da mesa, pressionando uma foto. Afastou-se rápida, e sumiu por instantes. Uma gaveta abriu-se. A mão pálida voltou segurando um envelope. E ouviu o homem dizer “mate o canalha, e apenas o canalha.” Pegou a foto, e mirou-a, mentalizando o rosto do homem morto; sim, já morto. A menos que o envelope não contivesse o valor do contrato. Virou a foto, os endereço impressos: o do trabalho e o de casa. Largou a foto. No envelope, o dinheiro acertado. Não disse palavra. Apenas se levantou e encaminhou-se para a saída. Ouviu ainda o homem de branco dizer que queria no jornal a notícia da morte do canalha. E pensou: “tá lá, doutor.”

* * *

 Seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Antes recebera uma coronhada entre os olhos, que lhe deixou aturdido, com o corpo atirado ao chão. Tonto, tentou levantar. Não conseguiu se pôr de pé. Mas ajoelhou-se. E seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Olhou para o lado e viu G., inerte. Tentou extrair de seu olhar a traição que sempre esperou. Mas nada lhe foi revelado. Ela estava, definitivamente, aflita. Ou era boa atriz. Voltou-se para o cano da arma. Segurando a arma, um estranho. Corpanzil, musculoso, olhar fixo em si. Mirou no dedo a afagar o gatilho. Voltou-se para o cano da arma. Não lhe parecia que tremia. Mas sentiu líquido a queimar-lhe as coxas, molhando suas calças. O homem em fração de segundos virou-se para G. e seu olhar dizia-lhe para conter o grito que anunciava, e não cumplicidade entre eles, que lhe justificaria tamanha violência. Quis falar, mas som algum emitiu. Não sabia a razão de ter sido agredido com tanto vigor. Mirou novamente o rosto do homem. Expressão alguma denunciada, a não ser a sua frieza. O certo, a impressão que teve, é que nunca o viu. Seu olhar, mirando o homem com a arma, buscava uma explicação. Mas o homem mostrava-se indiferente. Ouviu G. balbuciando “por favor, não faça isto. Pegue o que quiser, mas não faça isto.” O homem voltou-se para G. Pareceu-lhe ainda ausente qualquer cumplicidade. O homem estava disposto apenas a fundar o terror: afinal, em nenhum momento mencionou os dólares, ou as jóias, ou o Audi estacionado. Em verdade, não mencionara nada. Disse ao homem que não tocasse em G. O homem aquiesceu, encolhendo os ombros. Agradeceu-lhe. Sabia que G. não seria tocada. Na firmeza do homem em agredir-lhe, sentiu que poderia nele confiar. Ouviu o estampido e sentiu queimar a fronte.

* * *

Surpreendeu-se ao abrir a porta, projetando-se contra a parede.  Um homem invadiu o seu apartamento, com uma espingarda na mão.  O barulho chamou a atenção de R., que lhe acudiu.  Foi, barrado, porém, por uma coronhada entre os olhos.  Caído, R. tentou levantar, em vão.  Não entendeu nada do que ocorria.  R. olhou-a como se procurasse ajuda.  Tentou gritar, mas o olhar do homem a impediu.  A arma sempre mirada para R.  Se tanto, e o que se lembra, disse ao homem que não fizesse mais qualquer violência, que levasse o que quisesse do apartamento.  O homem a fitou, e logo entendeu que não era um assaltante.  Imaginou, a princípio, que pretendia violentá-la.  Mas viu o homem dar de ombros ao pedido de R. de que não a molestasse. Então o pior aconteceu-lhe: o tiro.  O rosto de R. desfigurou em pólvora e sangue.  Em seguida, o corpo abruptamente desmoronou sobre o piso enxadrezado, como se abatido uma peça qualquer.  Sentia o cheiro da pólvora ainda quando se debruçou sobre o corpo.  O sangue tingia sua blusa branca.  Entre dedos, ao segurar a cabeça sem vida, miolos.  Berrou o nome do morto, entre soluços, entremeando com palavras ininteligíveis.  Voltou-se, sem muito se afastar do corpo, para pedir socorro, mas apenas viu as pernas do assassino sumir pela porta.  Gritou por ajuda.  Nem os passos do assassino mais eram ouvidos.  Estava só, com o corpo.  Estava sozinha. Correu ao telefone ligou para 198.  Depois, sentada no chão, pernas dobradas, abraçadas, ficou a mirar o corpo, e se imaginou sozinha para sempre.  A noite chegava com o seu luto.

 * * *

 Sucumbiu o desgraçado com uma coronhada, ao vir socorrer a cunhã, que afastara de sua frente.  “O que foi, G.?”, pronunciou-se o desgraçado.  Seus passos interrompidos com a coronhada, que o projetou para trás, até que colou a bunda no chão.  Tentou levantar, mas o cano da escopeta o impediu.  Virou-se para lado, para onde estava a cunhã. Voltou-se para o filho da puta, que olhou para cunhã como se buscasse auxílio. Seu olhar cortou o grito da cunhã. Ela ainda balbuciou que não fizesse aquilo, que levasse o que quisesse. Olhou-a como se dissesse que apenas queria a vida do filho da puta. Virou-se novamente para filho da puta, que, trêmulo, pedira que não fodesse a cunha. Apertou o gatilho, atingindo em cheio o filho da puta, que foi projetado para trás. Virou-se e dirigiu-se à porta pensando que seria bom foder aquela piranha. Mas não seria ela que o faria descumprir um contrato.

agosto 16, 2008

O Plano*

Deu-lhe um safanão. Acordou-o.
“Quem é Gertrude?”, sussurrou visivelmente brava.
Respondeu, ainda aturdido pelo despertar ab-rupto, que Gertrude era uma personagem de um trabalho.
Ela olhou-o mais furiosa. Sim, introduziria, definitivamente, vidros moídos no cardápio.


* Conto deste blogueiro, publicado hoje no Confraria Tarântula.

agosto 07, 2008

Em busca de um certo tom escarlate


“Morrer deve ser tão frio
Quanto na hora do parto”

Gilberto Gil: Aqui e Agora, in Refavela


Ainda hoje é possível vê-lo, em noites de lua cheia, com seu corpo jovem, macérrimo e naturalmente ágil, escalando a ponte metálica em perseguição, supõe-se, ao B. B. King — é perfeitamente audível Lucille executando The Other Night Blues. No princípio, socorriam-lhe bombeiros, policiais, pastores, padres... Mas simplesmente esvaía-se na escuridão. Com o tempo, deixaram-no em paz com B. B. King e Lucille.
Os amigos atribuem a sua desventura, como tem sido vulgar, a uma mulher: Carmen, colombiana e artesã, com quem seguiu rumo ao sul, queimando cannabis sativa e fazendo artes. Eu, aliás, encontrei-o em Brasília, no Moinho, e dele comprei uma xilogravura, que, ainda hoje, moldura minha sala. Aquele menino, outrora alegre, dinâmico, era triste, apático. Já não se lembrava de ninguém. Muito menos da cidade natal.
Tempos depois, soube do seu regresso. Disseram-me que estava abatido, irreconhecível. Devorava telas, que um mercador lhe dava, em busca de um certo tom escarlate. Buscou-a ao limite, incisando o pulso, encerrando a vida como uma quarta-feira de cinzas finda o carnaval por estas bandas.

julho 17, 2008

Até que a morte os separe*

Chegou em casa com um misto de So Pretty, da Cartier, e Z, de Ermenegildo Zegna. O timbre da voz, percebeu logo, não era o comum. Nem a pauta:
— Demorei porque encontrei a fulana.
As narinas vibraram silenciosas. O Z não era feminino. Tampouco fulana era uma desmiolada: nunca usaria um perfume masculino.
Quem lhe teria tocado com patchouli? A percepção, ainda que não sentisse aroma diverso da que usava, era de quem, se não o traíra, fodendo, estivera flertando. O pigarro, quando detestava cigarro, indicava a mentira, ou, no mínimo, o desconforto.
— Você agora usa Z?
— Tá louco?
Vagabunda, murmurou, tateando o caminho rumo ao quarto. Retrucou, em sussurro, filho da puta.
E foram dormir.




* Publicado hoje na Confraria Tarântula.

maio 29, 2008

A herança de cada um*

Eles, aos berros, agrediam-se. Gérson, o caçula, sangrava já. A mãe, antes buscando apartar os filhos, agora retinha-se no sofá, mirando um ponto qualquer no céu, pela varanda, como se estivesse sozinha. Os dois, pensava mais uma vez, nunca se uniriam. Afinal, Lucídio, pai de Lucas, e Geraldo, pai de Gérson, foram inimigos até a morte.
A mãe levantou-se e dirigiu-se à varanda. Olhou o céu, e, como se o desprezasse, buscou a terra.
Os filhos, ainda hoje, agridem-se por qualquer bobagem. A mãe não esboça qualquer gesto para separá-los, presa à cadeira de rodas e ao passado. Ontem, porém, Lucídio visitou-a à noite, enquanto dormia, com a marca de corda no pescoço, prometendo retornar. As mãos tremeram e o rosto contraiu-se ao lembrar que ele a chamara de assassina.
Precisava encontrar um meio de afastar pelo menos o fantasma.

* Conto extraído do blog Confraria Tarântula, postado em 16 de maio.

abril 24, 2008

O amor é possível*

Ela mirou a Cyber-shot para o seu rosto uma, duas, três, quatro vezes, enquanto ele sorvia o açaí que lhe tinha sido servido. A cada foto, ela, sorridente, mostrava-lhe o feito. A contragosto, olhava-a. Findo o açaí, levantou-se, com ela seguindo-lhe à distância, contrariada.
Quando ela disse-lhe que a esperasse e ameaçou transformar comprar em verbo irregular, suprimindo as primeiras pessoas do singular e do plural, parou, abraçou-a, tentando entrelaçá-la, e beijou-a.

* Conto extraído do blog Confraria Tarântula, postado em 16 de abril.

abril 12, 2008

Helena

Ao contista J. L. Rocha do Nascimento

"Não é por que sei que ela não virá que não vejo a porta já se abrindo"
Meu mundo ficaria completo (com você), por Nando Reis


A princípio, bêbado, o peso do mundo sobre sua cabeça, enquanto na cama, o torpor, e a evocação de Helena. Chamou-a até dormir. E teve a impressão de que ela viera, em sonho. Linda, estava como da última vez que a vira. Pareceu-lhe que reatada a linha do tempo, abruptamente interrompida com o sumiço de Helena. Ou tudo teria sido realidade? Sentia o sabor do batom que Helena costumava usar. O costado da mão convenceu-lhe do sonho.
Então, no dia seguinte, um amigo deu-lhe notícia de Helena. Estava na cidade, para casar com um colombiano de nome Pablo. Disfarçou o desapontamento, dizendo que agora ela cantaria boleros em espanhol impecável. O jornal, atirado pelo amigo, foi duro golpe. Ali estava ela, feliz. Foi para casa, e ouviu La Puerta repetidamente, ignorando brados de vizinhos, impassível, absorto na imagem daqueles olhos felizes e amendoados. E naquele dia não dormiu propositadamente, para sonhar com Helena, que esteve presente com ele a noite toda, revirando a cama e queimando lençóis, e, ao sol parir, aflautando canções de Chico, como costumeiramente fazia nas manhãs, depois de noites báquicas.
Então, escreveu: “Não dormi. Helena também não.”
Não procurou Helena. Nada, nada mesmo, tinha a lhe falar. Disse a si mesmo: estava morta. Evitou os jornais por uns dias. Debruçou-se sobre o projeto pendente, por horas a fio, todos os dias, varando a noite frente ao Autocad. E a vida seguiu seu curso, com mudanças de estações e com Maria, Rosângela, Eliza, Ana, Alice, Sônia, Edna, Lindalva, Carol, Sueli, Jaqueline, Luciana, Luíza, Teresa, Marta e...
Bêbado, em uma noite, lembrou-se de Helena. Evocou-a até adormecer. E Helena veio. Com ela, a chuva. Viram-na lavar a janela, e desenharam desejos no frio do vidro. Da varanda, viram, enublado, o rio, e dele não exalava a fedorentina de sempre. A cidade acordava quando ela foi embora. Viu sua imagem desfazer-se no canto do quarto, com a certeza de que sonhara. Depois, adormeceu com o cheiro de sexo emanando de seu corpo. Acordou pelos toques do telefone. Tarcísio, excitado, perguntou-lhe se já tinha visto o jornal. Não, respondeu. Então, soube que Helena estava na cidade, com o marido e a filha, Maria. Agradeceu ao amigo. Sonolento, mas praguejando por ter sido acordado para uma notícia que já sabia, pegou os jornais. Todos anunciavam a estadia de Helena na cidade. A mãe, doente, interrompera a administração da família em próspero comércio. Brincou com a situação. Disse que lamentava não ter sido poeta romântico, e morrer, depois de contrair a mycobacterium tuberculosis, apaixonado.

abril 09, 2008

Frustração

Ato I. Entrada, linda, majestosa, perfumada, sexy.
Ato II. Agradável, insinuante, sussurante, sexy.
Ato III. Embriagada, sedutora, excitante, sexy.
Ato IV. Música, meia-luz, sofá, vestida, sexy.
Ato V. Nua, cicatrizes, gorduras, náuseas, baranga.
Ato finale. Noite, táxi, bêbado, dormir, solitário.

março 22, 2008

Acerto de conta

Vergados o mindinho e o anelar. Mirou para imagem de Paulo com o médio e o indicador tesos. O polegar arriou sobre o indicador. Um buraco, com bordas em chumbo, fez-se. Viu fragmento de osso e, em seguida, da testa, uma bica; escarlate, entre os olhos, em direção ao nariz.
Pensou, neste instante, buscando a Smith & Wesson deixada por Paulo, que todas as pessoas são doentes.

março 09, 2008

Um segredo a mais

Despertara com B ao seu lado decidida a ir embora antes que acordasse. Não sabia ao certo se resistiria ao fitar-lhe, ainda que lhe restassem da noite agora apenas machucados, o mau hálito ácido do vinho e a ressaca. A água, achou sob o chuveiro, purificar-lhe-ia o corpo e a alma.
Teve certeza, ao buscar o térreo, de que You're Still The One já não lhe tocava como antes e sorriu ao pensar que tinha mais um segredo a conservar distante do idiota.

fevereiro 23, 2008

Genésico

Caudaloso rio fluía das entrepernas, límpido e quente. Quando a nau, tardia, invadiu o porto, o rio enrubesceu-se, e, depois de sons ininteligíveis, o vermelho, em correnteza já tênue, viu-se com bolsões viscosos e embranquecidos.

O capitão, finda a invasão, exausto, mas sentindo-se Deus, imaginou, equivocadamente, ter feito da cidadela uma mulher.