CADÊ?

janeiro 06, 2009

Comemorar o que mesmo?


Chegamos à esquina da 5ª Avenida com a Rua 14, no Departamento Miramar. Era, então, a sede centra da Polícia Política, a Lubianka cubana. Várias residências, produtos do despojo, formavam o complexo do G-2, que era como, a princípio, chamavam a Segurança do Estado. Fui levado ao segundo andar, ao arquivo. Tiraram minhas impressões digitais e me fotografaram com um letreiro que dizia: "contrarevolucionário".
- Conhecemos suas declarações onde você trabalha; você andou atacando a revolução - afirmaram.
Defendi-me, dizendo-lhes que não havia atacado a revolução como instituição.

- Mas atacou o comunismo.
Isso eu não neguei. Não podia, nem queria fazê-lo.

- Sim, é verdade - disse-lhes, - considero o comunismo uma ditadura pior da que acabamos de padecer e se ele se estabelecer em Cuba, seria como na Rússia: passar do czarismo à ditadura do proletariado.

Naquela mesma tarde me levaram com os outros detidos - entre eles, uma mulher - a um pequeno salão. Mandaram que nos sentássemos em um banco de madeira. Havia refletores, que se acenderam; os fotógrafos e câmeras começaram a fotografar e a filmar. No dia seguinte, aparecemos nos jornais e televisão como um bando de terroristas, agentes da CIA, capturados pela Segurança do Estado.

Eu não conhecia nenhuma daquelas pessoas. Nunca as tinha visto. Foi lá que entrei em contato com Nestor Piñango, Alfredo Carrión e Carlos Alberto Montaner, três estudantes universitários. Também conheci Richard Heredia, que havia sido um dos chefes do Movimento 26 de Julho, na província de Oriente.

No dia seguinte houve o segundo interrogatório.

- Você estudou em um colégio de padres - disseram.

- Sim, nos Escolapios; mas o que importa isso?

- Importa, sim. Os padres são contra-revolucionários e o fato de ter estudado nessa escola é mais uma evidência contra você.

- Mas Fidel Castro estudou no Colégio Belém, dos padres jesuítas.
- Mas Fidel é um revolucionário e você é um contra-revolucionário, aliado aos padres e aos capitalistas; por isso vamos condená-lo.

- Não há nenhuma prova contra mim, não descobriram nada.
- É verdade que não temos prova alguma, concreta, contra você, mas temos a convicção de que é um inimigo em potencial da revolução. Para nós, é o suficiente.



Fragmento extraído do livro Contra toda a esperança, de Armando Valladares.

6 comentários:

EMERSON ARAÚJO disse...

Meu caro M. de Moura Filho,



Eu vejo sim a revolução cubana nos índices de educação acima de todas as médias dos países capitalistas.

Na saúde emprestando aos países de terceiro mundo e outros a experiência do médico da família.

Eu vejo, também, na adoção do povo cubano pelo comunismo como opção de escolha.

Respeito tua posição de ser contra, mas estou ao lado da maioria do povo cubano e não de minoria que perdeu os privilégios e mania de transformar Cuba e outros países latinos ou não em gueto do Tio Sam.

Um abração!


RESPONDE TU...

Tradução de Gilfrancisco Santos


Tú, que partiste de Cuba,
responde tu,
onde acharás verde e verde,
azul e azul,
palma e palma sob o céu ?
Responde tu.

Tu, que tua língua esqueceste,
responde tu,
e em língua estranha mastigas
o güel e o yu,
como viver podes mudo ?
Responde tu.

Tu, que deixaste a terra,
responde tu,
onde teu pai repousa
sob uma cruz,
onde deixarás teus ossos ?
Responde tu.

Ah infeliz, responde,
responde tu,
onde acharás verde e verde,
azul e azul,
palma e palma sob o céu ?
Responde tu.


(Nicolas Guillén – poeta Cubano)

Kenard Kruel disse...

poeta irmão emerson araújo, caramba! que lindo! ah, poeta, esses contistas não sabem o dizem. perdoa-os, mestre! kenard kruel.

M. de Moura Filho disse...

Uma passagem, apenas de ida, para Cuba, por favor!!!
Quem se habilita?

EMERSON ARAÚJO disse...

Eu me habilito sem traumas! Sei o que aconteceu com este povo cubano que tomou as rédeas da sua própria história. Quer mais? Quero ir e sei que vou voltar pra esta "privada" do capitalismo subserviente.

M. de Moura Filho disse...

Não, grande poeta. Você não entendeu... a passagem é somente de ida.
Assim, livra-se desta "'privada' do capitalismo subserviente."
Claro que vou sentir saudades suas.

EMERSON ARAÚJO disse...

Então passo a compreender agora. Eu vou a Cuba se for pra não voltar, tudo bem. Prefiro o "paredón" para os traidores do que ficar assistindo nossos meninos/meninas comendo lixo atrás da CHESF, se prsotituindo pela extensão da Avenida Maranhão, os nossos velhos pelas calçadas morrendo de fome e lepra. Tanto pragmatismos, tanta liberdade burguesa que continua reduzindo o homem em mercadoria, em nada. Também vou sentir saudades tuas, meu caro Leonam, mas te mandarei de lá um copo de "Marguerita" e quem sabe um morena cheirando a jasmim. Abração!